{Devaneios} Fulano, Siclano e os pequenos assédios do dia a dia

Peço 5 minutos da atenção de vocês para falar sobre a história de Fulano. Nesse texto, Fulano não tem um nome mesmo, porque Fulano pode estar na sua família, no seu trabalho, pode ser seu amigo e talvez até você.

Fulano é um cara engraçadão – pelo menos ele acha que é -, fala alto, gesticula, faz piada de tudo e com todos, mesmo que ninguém tenha dado intimidade a ele, porque Fulano realmente acha que não fere ninguém quando despeja a primeira coisa que vem a cabeça. Ele faz piada sobre gay, ele faz piada sobre mulher, Fulano faz piada sobre tudo, menos sobre ele, porque Fulano teoricamente não se abala com nada.

Ele também não entende as dicas dos outros. Não entende quando alguém fala que ele está passando dos limites, não aprende com as milhares de vezes que alguém já perdeu a paciência com as “brincadeiras” dele. Isso tudo porque Fulano realmente se acha MUITO engraçado e porque sempre tem alguém que ri do que Fulano faz.

Siclano é aquela pessoa que sempre acha que Fulano faz tudo sem maldade e, por isso, sempre sorri – cá entre nós, as vezes eu prefiro acreditar que Siclano ri por constrangimento, para aliviar o ambiente, mas a verdade é que diariamente os Siclanos incentivam os Fulanos do mundo a continuar perpetuando intolerância, assédio, preconceito, tudo isso disfarçado de piada.

Fulano vive em uma sociedade onde as piadas dele são sociamente aceitas. Por isso mesmo, ele é um cara bem sucedido e que sempre consegue chamar a atenção das pessoas (nem sempre positivamente, é verdade).

Quando Fulano faz piada sobre homossexuais na frente de um colega enrustido, Fulano acha que está sendo engraçado (afinal, Siclano sempre está lá para rir). Fulano não pensa que reprime mais ainda o colega, aliás, talvez inconscientemente Fulano saiba disso e faça da “piada” uma forma de manter o colega dentro do armário, assim ele não vai precisar “lidar” com uma pessoa segura da própria sexualidade. Afinal, segurança alheia assusta os inseguros.

Quando Fulano expõe a colega mulher, ele esconde na brincadeira uma série de preconceitos e ideias pre-concebidas advindas de uma sociedade onde mulheres são frágeis, devem ficar caladas e aceitar. E o que deixa Fulano desconcertado é justamente achar uma que não ceda a pressão dele. A questão é que mesmo assim, Fulano continua insistindo, porque, realmente, ele acredita que expor as pessoas é MUITO engraçado. Desta forma, Fulano é sempre o centro, o superior, e o outro é o bobo da corte – não sabe Fulano a verdade.

Fulano, quando faz piada sobre mulher, sobre gay, sobre o outro, esconde as próprias inseguranças e Siclano, quando ri, assedia junto com ele, mesmo que no fundo ele pense só estar aliviando a pressão do ambiente – pra você ver o tamanho da inconvêniencia.

Essa é só uma parte da história de Fulano. Infelizmente, o mundo está cheio deles. Por isso, aqui vai um pedido (e um conselho): se você não é Fulano, não seja Siclano.

Sobre Bac Melo

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