{Devaneios} O povo contra O. J. Simpson e a nova heroína feminista do Netflix

Aqui vai uma ​dica de série para a vida: The People vs. O.J. Simpson – American Crime Story. A história se passa nos Estados Unidos dos anos 90 e acompanha o julgamento do ex-atleta e celebridade nacional O. J. Simpson. 

A série é excelente, daquelas que você devora em poucos dias (10 episódios só), mas hoje eu vou falar sobre um episódio em particular, tirando o foco do enredo principal, inclusive. Justamente porque acredito que ele este episódio é um tem-que-ver.


No sexto episódio da série, durante um dos julgamentos do século, a história se desenrola dando destaque a postura e ao impacto de participar do julgamento do século na vida das partes envolvidas no processo. É sobre isso que eu quero chamar atenção: enquanto a história mostra os advogados do réu – competentíssimos, canastrões, extravagantes, midiáticos – tendo o seu moral elevado por participar da decisão sobre um dos crimes de maior repercussão dos últimos tempos, a promotora Marcia Clark – única mulher presente no tribunal representante das partes, vale salientar – sofre inúmeros ataques pessoais em plena Corte americana: desde ouvir ironias por precisar encerrar a audiência para ir para casa cuidar dos filhos, passando por ver a sua imagem ser desgastada e ridicularizada pela imprensa por parecer séria e dura demais (mulheres deveriam ser apenas delicadas e femininas aparentemente), até testemunhar a sua vida pessoal ser exposta por ex-maridos mesquinhos que aproveitam o holofote e usam a mídia para se auto promover. 

Imagem pessoal divulgada pelo ex-marido da promotora à mídia durante o julgamento

Para dar a dimensão do caso: O. J. Simpson, foi apenas um dos maiores jogadores de futebol americano dos últimos tempos, ídolo esportista, que foi acusado de assassinar duas pessoas – a ex-esposa e o namorado dela. 
É durante esse episódio em questão que a estratégia da defesa passa a ser tirar o foco do julgamento do réu e degradar a imagem da promotora diante do juri popular e da sociedade. Tal forma de ataque tem consequencias quase permanentes na vida de Marcia, inclusive ocasionando a possibilidade da perda da guarda dos seus filhos por alegações de falta de condição de criá-los. Afinal, quem já viu uma mãe de família trabalhar, ser destaque na sua profissão e ter tantos “escandalos” publicados na imprensa?
Marcia Clark foi designada para ser a representante do Estado neste caso e, como forma de descredenciá-la, os ataques pessoais feitos a ela pelos defensores – jurídicos ou não – de O. J Simpson eram recorrentes. Mesmo que todas as provas levassem a crer que ele era culpado, as acusações de racismo proferidas pela defesa e o desgaste da imagem da equipe da promotoria e dos policiais embasaram a defesa rumo a absolvição do réu.

Marcia, como trabalhadora competente, foi vítima de uma sociedade sexista e misógina ao tentar reparar a omissão por parte da justiça à Nicole Simpson, assassinada e negligenciada diante dos inúmeros pedidos de socorro sobre as ameaças e a violência vindas de um ídolo da nação – com histórico de violência anterior -, mas adorado pelo país inteiro.

O triste é que, por se tratar de uma série, eu poderia dizer que tudo faz parte de uma obra de ficção, mas não. O julgamento de fato aconteceu, Marcia Clark de fato existiu. O. J. Simpson foi absolvido do crime e depois preso por outras contravenções. Fato é que mesmo após um assassinato cruel, o ex-jogador continuou sendo adorado e até hoje faz parte do Hall da Fama da principal liga de futebol americano. Mesmo que essa história tenha se passado há mais de duas décadas, é comum vivenciarmos eventos como os descritos em nosso ambiente profissional e pessoal – vide recentemente o goleiro Bruno sendo ovacionado na saída do presídio.

Voltando a série, é bonito observar o quanto Sarah Paulson, a atriz que vive Marcia Clark, tenta transformar a promotora na heroína feminista que precisamos. E consegue. Principalmente por representar um pouquinho de cada uma de nós na personagem, demonstrar nossos medos por sermos mulheres, por querermos nos destacar no ambiente de trabalho e também sermos mães, esposas, divorciadas, solteiras, enfim, pessoas. Demorou, mas a redenção de Marcia Clark após anos de exposição e degração finalmente chegou e está disponível para o mundo ver, usar de exemplo e se inspirar: tudo ao alcance de uma conta no Netflix.

Bac
Série: O Povo Contra O. J. Simpson

Disponível no Netflix

Sobre Bac Melo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


Get Widget