{Devaneios} A experiência da mulher

De uns dias para cá a minha timeline pessoal do Facebook foi inundada por relatos de estupros em série que estão acontecendo lá em Recife. Todos os crimes cometidos pelo mesmo homem, contra mulheres jovens, em bairros nobres da cidade. Não bastasse isso, o UBER se instalou há alguns meses por lá e algumas histórias de abuso contra mulheres também foram compartilhadas por pessoas próximas a mim.

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Coincidentemente, no mesmo dia que tive um debate entre amigas sobre as possíveis atitudes das mulheres diante dos casos publicados pela mídia, recebo um e-mail do aplicativo 99TAXI me convidando a participar de uma pesquisa para melhorar a experiência da mulher ao utilizar o aplicativo. Por estes e vários outros motivos, passei o dia me perguntando como definir a linha tênue entre tomar alguma atitude sem se colocar na posição de refém.

Por mais que eu levante a bandeira do feminismo, meu corpo minhas regras, diga não ao fiu fiu, é fato que o estupro é um crime que me apavora. Mas apavorar é diferente de deixar inerte, certo? Olhando para trás, eu me pego pensando na quantidade de situações em que eu já possa ter me colocado sem intenção: andar na rua só a noite, pegar um UBER sem companhia. Se eu parar para pensar, chego a conclusão de como eu me sinto frágil diante de um possível agressor e de certa forma me parabenizo por não deixar que isso me paralise.

E eu não to falando só da agressão física. Que atire a primeira pedra quem nunca foi assediada em algum nível. Das várias vezes bem sucedidas em que usei o UBER sozinha, apenas uma vez me senti coagida quando um motorista perguntou se eu morava sozinha. Podia ter sido a minha própria heroína naquele momento, ter dito que sim, mas não. Sucumbi. Falei que morava com alguém, um homem, porque me senti mais protegida dessa forma. Quantas vezes não me repreendi por automaticamente baixar a cabeça quando passei por um grupo de homens? Ou enterrei o fone de ouvido na orelha para não ouvir caso alguém falasse uma gracinha? Quantas mulheres eu conheço que fazem as mesmas coisas?

Seria isso se fazer refém ou se auto-proteger por antecipação? Eu realmente sinto certa admiração por mulheres que se impõem, que respondem no mesmo nível, que atacam quando são atacadas. Mas eu também sei que elas são exceções, um grau de superioridade e confiança do qual eu gostaria que todas nós, que fazemos parte da imensa maioria das mulheres que se sentem coagidas – mesmo sem nenhuma atitude agressiva da parte contrária -, alcançássemos.

Me policio todos os dias para não olhar homens desconhecidos como opressores, porque conheço homens maravilhosos que não objetificam mulheres; porque conheço homens que têm tanto nojo dos pares que abusam de mulheres – de novo, em qualquer grau – quanto eu e generalizar seria muito injusto com eles. O problema definitivamente não é o sexo, é a índole, a predisposição, a cultura do machismo ainda considerada normal, o desejo pelo crime, pelo proibido.

Ao 99Taxi, parabéns pela iniciativa. Segregação não vai resolver o problema da agressão contra a mulher, mas nos dar opções para nos sentirmos mais seguras já é um bom começo.

Eu só queria que não precisássemos disso.

Bac

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